Coluna Fabrício Wolff | A credibilidade do jornalismo

05 de Agosto de 2019

Não é incomum que veículos midiáticos tomem para si o direito de influenciar a opinião das pessoas

O objetivo do jornalismo, base da existência da imprensa, é comunicar notícias. Matéria-prima do jornalismo, a notícia pode ser definida como a informação nova que possui relevância pública.  Não é incomum que veículos midiáticos tomem para si o direito de influenciar a opinião das pessoas e, por consequência, a opinião pública. A isso, nas internas das empresas jornalísticas, costuma-se chamar de “linha editorial”. Na teoria do jornalismo se discute, muitas vezes, se perseguir e insistir uma linha editorial não torna o veículo de comunicação mais tendencioso do que noticioso. Porém, este é um debate que vai longe e tem argumentações para todos os gostos.

Sabe-se que uma empresa midiática é, antes de tudo, uma empresa. Empresas têm compromissos com a rentabilidade, caso contrário não sobrevivem. Há compromissos a serem pagos mensalmente; há de sustentar a estrutura que compõe a empresa. Enfim, como toda e qualquer empresa, precisa faturar, pagar funcionários, saldar as contas e ao final, ter lucro. É fato que nem toda empresa tem no escopo de suas atividades, a facilidade para influenciar a opinião pública como as empresas que trabalham com a mídia, com a notícia. 

Isto faz com que seja muito mais difícil para as empresas de comunicação manter a ética, visto que pode ficar difícil separar a atividade da informação das necessidades comerciais. É conhecidíssimo na teoria jornalística o método igreja-estado. Ele apareceu no final do século 19 e foi implantado pelos principais jornais do mundo como necessidade de separar a notícia jornalística dos interesses comerciais da empresa. Não deve ser fácil, considerando que – não raro – são exatamente os governos (as administrações públicas) os maiores clientes das empresas de comunicação. Talvez isto explique quando há exageros em notícias positivas ou negativas sobre determinados governos.

Por outro lado, é difícil entender quando um veículo tradicional e de repercussão nacional como a Revista Veja resolve inverter – ou subverter – a idéia básica de notícia e estampar em sua capa (edição 2644, de 24 de julho de 2019) a chamada para uma matéria de oito páginas sobre um suposto grupo “terrorista” denominado (pasmem!) Sociedade Secreta Silvestre. Com frases que demonstram um misto de amadorismo e até covardia, o suposto porta-voz do grupo fala em atentados contra veículos do Ibama e o sonho de matar Bolsonaro. Pelo visto, a revista levou a sério. Só ela. A reportagem teve zero de repercussão no restante da mídia nacional, de tão improvável.

 

Já para achincalhar o deputado federal (PSL-RJ) Hélio Lopes (mais conhecido como Hélio Negão, amigo pessoal do presidente Bolsonaro), a Veja, nesta mesma edição (pag 44/45) critica o alto número de projetos de lei apresentados pelo parlamentar na Câmara Federal (48 em cinco meses) e desfaz, tratando como bobagem, um de seus projetos – o que pretende enquadrar como crime o uso de linhas cortantes – o popular cerol – nas linhas de pipas de todo o país. 

 

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Talvez os repórteres de Veja estejam dormindo no trabalho para não perceberem que tais linhas de pipa matam pessoas inocentes, como aconteceu, mais uma vez, recentemente em Florianópolis, quando a vitima fatal foi a publicitária Josiane Marques, de 34 anos. Em Santa Catarina, a lei estadual n. 11.698, de 2011, proíbe a utilização de pipas ou similares equipadas com instrumentos cortantes e com linhas preparadas à base de produtos cortantes. É certo que a fiscalização estatal é falha, e acidentes e mortes continuam ocorrendo. Mas, pelo visto, a Veja não só não sabe disto como não se importa com vidas reais de pessoas comuns. Acha isso bobagem. Importante e relevante é a notícia espetaculosa e de veracidade pouco provável de um grupo extremista “silvestre”, escondido pelas matas brasileiras.

É por essas e outras que o jornalismo brasileiro vem perdendo a credibilidade. Pelo exemplo de alguns títulos/empresas que já foram tratados como referência, mas hoje estão dissociados da realidade do cotidiano de seus leitores e da vida nacional.

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.