Coluna Ligia Fascioni | Como está seu prazo de validade?

20 de Fevereiro de 2017

Quem diria que uma frase colocada no rótulo de um produto pode nos dizer tanto sobre a cultura de um lugar?

Desde que aprendi a ler, desenvolvi um vício difícil de largar: devoro toda palavra impressa que aparece no meu campo de visão. Isso inclui cartazes nas paredes, folhetos diversos, livros, placas, qualquer coisa. É mais forte que eu, não consigo evitar.

Eis que o negócio piorou muito desde que me mudei para a Alemanha, pois voltei aos meus seis anos de idade e quero ler tudo o que aparece para tentar entender a língua e a cultura do lugar. E a cultura está nos lugares onde a gente menos espera: nos rótulos das embalagens, por exemplo.

No Brasil, os produtos todos trazem aquela frase ameaçadora e suas variantes: consumir até data tal. Prazo de validade: data tal. Consumir no máximo até data tal. Não consumir depois da data tal. A gente morre de medo de ultrapassar um dia sequer, a impressão é que a pessoa vai morrer se tomar um sorvete que venceu ontem.

Aí, quando cheguei na Alemanha, achei estranhíssima a frase: “mindestens haltbar bis: data tal”. É que mindestens é no mínimo, pelo menos. Haltbar é durável, conservável, resistente. Eu não entendia e pensava: como assim, mínimo? Eles deviam dizer que esse é o prazo máximo! Não faz sentido escrever isso no rótulo, está invertido.

Aí fui entender a tal da cultura por trás desse aviso inocente. Interpretando corretamente a frase, lá está escrito que eles garantem que o produto está bem conservado pelo menos até essa data. Pode ser que ele esteja bom depois, mas aí você vai ter que usar seu bom senso para saber. Mas no mínimo até essa data, tudo deve estar ok.

Deu para perceber a diferença sutil de abordagem?

Na nossa cultura, você precisa consumir o produto até a data tal de qualquer maneira. Na cultura alemã (ou europeia, não sei), não há uma ameaça velada. Apenas uma recomendação, apresentada de uma maneira, a meu ver, um pouco mais positiva. É claro que as mensagens mais restritivas no Brasil  podem ser porque ele nunca passou por uma guerra, porque é bem mais jovem e consumista ou até por causa do calor; num país tropical, essas questões de validade são mais sérias. De qualquer maneira, achei interessante.

Talvez essa diferença de visão seja responsável por tantas iniciativas de sucesso na Europa com lojas que só vendem produtos de validade vencida ou próximas do prazo com preços bem menores, como essa, na Dinamarca. No Brasil, imagino que seria complicadíssimo.

Lembrei disso porque minha mãe publicou um texto de humor onde ela descrevia uma cena em que três pessoas com “data de validade quase vencendo” estavam sentadas num café. No Brasil, logo estariam, para continuar a metáfora “impróprias para consumo”. Na Alemanha, onde a idade média da população é mais alta, elas estariam “na garantia” até o prazo, mas depois poderiam continuar ótimas; dependeria muito das condições de conservação…rsrs

Essas diferenças são muito sutis e delicadas, mas ampliam nossa visão do mundo. Quem diria que dá para aprender tanto lendo rótulos?

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NOTA: a legislação brasileira de rótulos de embalagens dá um banho na Europeia, na minha opinião. Não é raro comprar produtos sem ter a mínima ideia da origem e de onde são produzidos. Aquelas tabelas nutricionais só aparecem às vezes.

Ligia Fascioni

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    Ligia Fascioni é consultora e palestrante nas áreas de marketing, identidade corporativa, liderança, inovação e atitude profissional. É engenheira eletricista, mestre em automação e controle industrial, especialista em marketing e doutora em engenharia de produção e sistemas com foco em gestão integrada do design. Autora de vários livros, incluindo “DNA Empresarial: identidade corporativa como referência estratégica” (Integrare, 2010) e "GPS para curiosos" (e-book, 2013). Seu blog (www.ligiafascioni.com.br) foi selecionado como um dos 10 melhores em língua portuguesa pela Deutsche Welle em 2013. Desde 2011, mora em Berlin, Alemanha, onde é sócia de uma start-up de tecnologia.