Cannes Lions 2017 | Entrevista com PJ Pereira, Co-fundador da Pereira & O'Dell

18 de Maio de 2017

O publicitário é o único brasileiro com 4 Grand Prix no Festival

Como faz há 5 anos, o AcontecendoAqui vai publicar uma série de entrevistas com jurados brasileiros selecionados para o Cannes Lions Festival, que acontece de 17 a 24 de junho na Riviera Francesa. Iniciamos a série com a entrevista que realizamos com o publicitário PJ Pereira, um dos líderes mais respeitados da propaganda mundial. Co-fundador da Pereira & O'Dell em sociedade com o americano Andrew O’Dell e o Grupo ABC, PJ será presidente do Júri do Entertainment Lions em Cannes 2017. Único brasileiro com 4 Grand Prix no Festival, sua agencia ganhou 2 Emmys e transformou marcas em filmes, livros, web-séries e até mesmo anúncios que provam que o marketing pode competir contra conteúdo tradicional pelo tempo dos consumidores. PJ é também escritor, autor da trilogia best-seller Deuses de Dois Mundos e do recém-lançado A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa.

 

Você é um dos publicitários mais reconhecidos pelo Cannes Lions, que já lhe premiou com 4 GPs. Quantas vezes você participou do Festival e como reagiu à indicação para ser Presidente de Júri?

Eu vou todo ano, há mais de 20 anos. Já fui jurado uma vez e como presidente de júri esta é a minha segunda vez. É um trabalho importante, não só pelo prestígio mas também pelo aprendizado. O julgamento ensina muito, se você chega com a cabeça aberta para ouvir e deixar o trabalho formar sua opinião, em vez de trazer sua perspectiva formada e tentar selecionar o trabalho que "prova" que você estava certo. Apesar da pressão para transformar o marketing nova atividade científica, cheia de best-practices e padrões, nossa indústria sempre mostra que a coragem e o bom-gosto continuam importando. Você pode passar o ano todo lendo e estudando a parte científica (que é importante) mas não há lugar melhor para educar seu bom-gosto e coragem do que Cannes.

 
Qual é a sensação em julgar uma Categoria importante e nova no Festival como o ENTERTAINMENT LIONS?

Eu julguei Cyber há mais de 10 anos. Na época em que a categoria era nova, mais ousada e cheias de surpresas. Quando não dava para imaginar nem o tipo de ideia que iria ganhar. Sinto que Entertainment é assim agora. Não apenas como categoria mas também como negócio. Branded Entertainment é o novo Digital. A área que mais vai crescer em volume e prestígio nesse mundo novo em que vivemos.

 
Qual é o aprendizado ou troca de experiências que você imagina ter lá com jurados de diversos cantos do mundo?

A categoria de Entertainment tem mais variedade que todos os outros júris. Não são apenas pessoas de países e gêneros diferentes fazendo a seleção. Os backgrounds são diferentes também. Tem gente de agências criativas, de bureaus de mídia, de empresas de entretenimento, agentes de talento, videogames, anunciantes... essa complexidade será a parte mais emocionante do julgamento.

De 3 anos para cá, o que você poderia citar como grandes mudanças no Festival?

Eu gosto do crescimento do número de categorias. Isso expande nossa perspectiva do que pode ser criatividade. Acredito que a propaganda fica melhor quando se inspira em mais fontes, em outras formas de expressão e geração de ideias. Mas a maior parte dessas formas ainda se baseia no princípio de que temos que interromper o consumidor para deixar nossa mensagem, um comportamento que o Youtube, o Netflix e as plataformas on-demand estão tratando de eliminar. Então eu olho a categoria de Entertainment e tenho um momento Star Wars: ela talvez seja nossa única esperança. Virar o conteúdo que os consumidores vão buscar talvez seja nossa última oportunidade de continuar contando boas histórias que mudem o que eles sentem por uma marca.

 
Cite um grande trabalho da sua agência que vai concorrer Cannes neste ano.

O trabalho que tem ido bem nas últimas premiações é o filme que produzimos para a empresa de segurança de dados Netscout. O filme se chama Lo and Behold, the reveries of the connected world. Ele foi dirigido pelo lendário Werner Herzog e tem uma avaliação 93% positiva no Rotten Tomatoes, a plataforma de ratings do iTunes. Ele mostra os lados bom e ruim da internet, e como nosso mundo depende dele para tudo hoje em dia, o que faz ficar mais importante a existência da Netscout. Uma curiosidade sobre esse trabalho é que depois que produzimos o filme, ele foi vendido para um distribuidor internacional que pagou pelos direitos mais do que investimos na produção.

 
Como as agências locais podem se inspirar em Cannes e trazer resultados inovadores aos seus clientes?

Resultados não são inovadores. São só resultados. Números. Dinheiro na conta. Market share. Consumidores entusiasmados com a marca, querendo mais, querendo pagar mais. Inovadoras devem ser as ideias para chegar lá. Agora, esse é um mundo competitivo. Uma agência pode querer se sobressair se comparando com as melhores do Estado, do Brasil ou do mundo. Quanto mais alta essa competição, mais difícil, mas também mais inspiradoras. Cannes é o lugar que eu vou todo ano para voltar com raiva. Com a sensação de que eu poderia ter feito isso ou aquilo, mas alguém foi muito mais inteligente, criativo ou esperto que eu.
 

O que é mais importante em Cannes? Ganhar um leão, palestras, conhecer pessoas?

O mais importante é ver o trabalho. Os case studies. Os reels de inscritos nas categorias que você trabalha, os shortlists de tudo. E, claro, os ouros e Grand Prix, durante as cerimônias. O resto é secundário e, na minha opinião, uma distração. Claro, quando você tem um bom ano, com muitos leões ou com trabalhos importantes, é muito bom. Alguns anos atrás, o Beauty Inside, que fizemos para Intel, ganhou os GPs de Entertainment, Film e Cyber e empatou com o incrível "Best Job in the World" como a segunda campanha com o maior número de GPs na história de Cannes, atrás somente de Dumb Ways to Die. Esse foi um ano inesquecível e insuperável como experiência, mas não dá para esperar nada parecido quando se arruma a bagagem. O importante mesmo é o aprendizado.

 
O que não falta na sua bagagem para Cannes?

Camisas de calor e um casaco fácil de carregar. É bem frio naquele Palais.